
Curitiba lidera acolhimento de refugiados no Brasil com maioria de imigrantes cubanos
Com as mudanças nas leis migratórias dos Estados Unidos, impostas durante o governo Donald Trump, a rota dos imigrantes cubanos se redesenhou. O destino principal, antes a Flórida, agora tem como alternativa o Sul do Brasil — com destaque para Curitiba (PR), cidade que lidera os pedidos de refúgio no país em 2025.
De acordo com a plataforma DataMigra, do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), 931 dos 999 pedidos de refúgio registrados em Curitiba no primeiro semestre deste ano foram feitos por cubanos. No total, o Brasil contabilizou 25.579 solicitações de refúgio, sendo 16.165 de cidadãos cubanos.
O Paraná recebeu 1.716 desses pedidos, sendo 1.344 originários de Cuba. Em comparação, São Paulo teve 747 solicitações e a capital paulista apenas 340. Essas solicitações representam o primeiro passo na análise da situação dos imigrantes — o reconhecimento do refúgio pode levar até três anos, conforme a complexidade de cada caso. Em 2025, Curitiba já concedeu 2.102 refúgios até junho.
Nova rota migratória passa pela Amazônia até o Sul
A entrada dos cubanos ocorre principalmente pelos estados do Amapá e de Roraima, após cruzarem as fronteiras com Suriname e Guiana. A jornada segue por todo o território até o Sul do país, onde Curitiba se destaca pelo acesso a empregos, documentação e qualidade de vida.
Curitiba lidera contratações de imigrantes
A cidade tem facilitado a inserção de refugiados no mercado de trabalho. Segundo dados, as agências do Sine em Curitiba encaminharam, em média, 11 cubanos por dia para entrevistas de emprego entre janeiro e maio.
Em 2024, o Paraná liderou as admissões formais de cubanos no Brasil: foram 1.905 contratações, à frente de Santa Catarina (1.283) e São Paulo (833). O Ipardes aponta que 62.206 migrantes estavam empregados formalmente no estado, um aumento de 37,9% em relação a 2023.
Acolhimento social e integração cultural
Grupos como o “Cubanos en Curitiba”, com milhares de membros nas redes sociais, auxiliam na adaptação e na busca por trabalho e moradia. A presença cubana já é marcante em espaços públicos e privados da cidade.
A Cáritas Arquidiocesana de Curitiba, ligada à Igreja Católica, tem papel fundamental no acolhimento. A coordenadora Fernanda Pedrosi afirma que a cidade vive “uma nova onda migratória, agora liderada por cubanos”.
“A maioria busca apoio para regularizar a documentação e entrar no mercado de trabalho”, explicou Fernanda.
“Muitos chegam sem o Registro Nacional Migratório (RNM). A Cáritas faz todo o acompanhamento, promovendo a dignidade.”
A maioria dos atendidos são homens, muitas vezes altamente qualificados, como médicos e engenheiros, mas que acabam em empregos informais por falta de validação de diplomas.
Histórias de reconstrução e solidariedade
O caso de Yusdel Roudan, de 35 anos, exemplifica esse processo. Ele chegou a Curitiba há sete anos e, com apoio da Cáritas, fez cursos, se empregou como motoboy e hoje atua como voluntário.
“Foi a melhor coisa da minha vida. Cuba tem um sistema político muito ruim. Aqui pude estudar e trabalhar. Agora ajudo outros cubanos”, relatou Yusdel.
“A distância da família pesa. Conseguimos manter contato, mas a saudade é grande.”
Acesso a serviços públicos e políticas sociais
A Prefeitura de Curitiba garante acesso à educação, mesmo sem documentação civil ou escolar. Em junho de 2024, havia 4.239 estudantes migrantes na rede municipal, sendo 3.436 no Ensino Fundamental, 790 em CMEIs e 13 na EJA.
Na assistência social, os Cras e Creas são portas de entrada para benefícios como cestas básicas, Cadastro Único, Bolsa Família, tarifas sociais e subsídios nos Armazéns da Família. Em junho de 2024, Curitiba registrava 10.824 famílias migrantes no CadÚnico, com 4.894 recebendo o Bolsa Família.
Na área da saúde, atendimentos emergenciais são garantidos mesmo sem CPF, enquanto Unidades Básicas de Saúde exigem apenas comprovante de residência para emissão do Cartão SUS.
Combate à xenofobia e formação de empresas parceiras
A Cáritas mantém uma profissional dedicada exclusivamente à inclusão no mercado de trabalho. Empresas parceiras são treinadas para lidar com diversidade.
“Recebemos relatos de racismo e xenofobia, com frases como ‘volta para teu país’, ‘fala português’ ou ‘aqui vocês não têm direito a nada’”, denunciou Fernanda Pedrosi.
Paraná firma parceria com a ONU
O Governo do Paraná firmou acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), da ONU, para fortalecer o acolhimento e integração de migrantes.
“Queremos ajudá-los a enfrentar os desafios com segurança e dignidade”, afirmou o secretário Valdemar Bernardo Jorge.
“O Paraná é exemplo de uma migração que funciona”, destacou Paolo Giuseppe Caputo, chefe da OIM no Brasil.
Além do acolhimento, o estado atende mais de 15 mil estudantes estrangeiros, incluindo migrantes, refugiados e apátridas, vindos de 78 nacionalidades. Os grupos mais expressivos são venezuelanos, haitianos e paraguaios.
Fonte: Gazeta do Povo
