
Discurso de Haddad sobre “herança maldita” é contestado por dados e análises técnicas
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem liderado uma ofensiva do governo federal ao atribuir à gestão anterior o descontrole fiscal enfrentado atualmente — a chamada “herança maldita”. Trechos de um vídeo com falas do ministro vêm sendo amplamente difundidos por lideranças petistas nas redes sociais, como o perfil oficial do PT e o da ministra Gleisi Hoffmann, após audiência conturbada na Câmara com os deputados Nikolas Ferreira (PL-MG) e Carlos Jordy (PL-RJ).
Haddad busca justificar o déficit primário acumulado nos dois primeiros anos do governo Lula — R$ 241,5 bilhões, o equivalente a 2,2% do PIB — ao desqualificar o superávit de R$ 54,9 bilhões registrado em 2022, no fim da gestão Bolsonaro. Segundo ele, o resultado foi obtido por meio de “calote”, “barbeiragem” e “depenação” de estatais. “Assim, qualquer um faz superávit”, declarou.
Contudo, uma análise técnica desmonta os principais argumentos apresentados pelo ministro.
Dividendos da Petrobras: gestão eficiente gerou lucros
Haddad acusa o governo anterior de ter “depenado” a Petrobras ao distribuir dividendos recordes em 2022. No entanto, os lucros extraordinários da estatal — R$ 188,3 bilhões, 77% superiores ao ano anterior — derivaram da alta do petróleo e de políticas de gestão que começaram ainda no governo Temer, com foco em austeridade, desinvestimentos e governança. A reversão do quadro crítico da estatal, agravado por gestões petistas marcadas por prejuízos e escândalos como o da Lava Jato, permitiu a retomada da distribuição de lucros.
Além disso, o atual governo também se beneficia dos dividendos. Em 2023 e 2024, a Petrobras repassou cerca de R$ 30 bilhões anuais à União.
Privatização da Eletrobras: venda não impactou superávit
A “barbeiragem” apontada por Haddad sobre a privatização da Eletrobras não se sustenta. A operação, aprovada em 2021 e executada em 2022, não impacta o resultado primário, pois os valores obtidos só podem ser usados para abater a dívida pública, conforme a legislação.
A medida visou reduzir o peso fiscal de uma empresa dependente de investimentos e vulnerável à interferência política. O processo preservou o poder de veto do governo (golden share), previu destinação de recursos ao setor elétrico e permitiu que trabalhadores investissem via FGTS. Ainda assim, Lula já defendeu a reestatização em três ocasiões e acionou o STF contra o modelo de governança adotado.
ICMS dos combustíveis: compensação foi iniciada ainda no governo Bolsonaro
Haddad também critica a desoneração do ICMS sobre combustíveis em 2022 e a suposta ausência de compensação federal. No entanto, parte da compensação aos estados foi prevista na LOA de 2023, com base na PEC da Transição, aprovada ainda sob Bolsonaro com participação da equipe de transição de Lula. O acordo formal ocorreu em 2023, após pressão dos governadores.
Precatórios: estratégia criticada é usada pelo atual governo
Outro ponto levantado por Haddad é o “calote” nos precatórios após as emendas constitucionais de 2021. O mecanismo, que criou um teto para o pagamento até 2026, permitiu alívio artificial das contas. Apesar da crítica, o governo Lula adotou a mesma estratégia: pagou R$ 73 bilhões via créditos extraordinários em 2024, valor que não entrou no cálculo oficial do déficit.
O STF validou esse modelo em 2023, estendendo sua aplicação até 2026. Em 2027, será necessário novo respaldo legal ou decisão judicial.
Taxa Selic: responsabilidade do Copom atual
Haddad também aponta o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, como responsável pela taxa Selic, que chegou a 15% em 2025. O ministro afirmou que a alta “foi contratada” na última reunião de Campos Neto, mas todas as decisões de 2025 foram tomadas sob comando de Gabriel Galípolo. Das quatro reuniões, todas tiveram decisões unânimes com maioria de membros indicados por Lula (7 de 9).
Mesmo com critérios de Haddad, resultado de Lula é pior
O economista Fernando Ulrich refez os cálculos fiscais utilizando os critérios defendidos por Haddad — desconsiderando dividendos, receitas de privatização e precatórios — e concluiu que, ainda assim, o desempenho fiscal de Lula é inferior ao de Bolsonaro.
Com os ajustes, o superávit de 2022 (R$ 55 bilhões) vira um déficit de R$ 50 bilhões. Já o rombo de 2023 salta para R$ 171 bilhões, e o de 2024 deve alcançar R$ 64 bilhões.
“Mesmo considerando a ótica e os critérios de Haddad, o governo atual ainda estaria no vermelho”, afirmou Ulrich. “O que está sendo feito no Ministério da Fazenda com as contas públicas é destruição completa”.
Fonte: Gazeta do Povo
