Deputado estadual Bruno Engler, a vice da chapa Coronel Cláudia, a deputada estadual Delegada Sheila e o deputado federal Nikolas Ferreira são acusados pelo Ministério Público de Minas Gerais de espalharem desinformação contra o ex-prefeito Fuad Noman. Denúncia pode levar à suspensão dos direitos políticos dos envolvidos

O Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) denunciou nesta terça-feira (8) o deputado estadual Bruno Engler (PL) e aliados por uma suposta campanha de desinformação contra o então prefeito de Belo Horizonte, Fuad Noman (PSD), durante o segundo turno das eleições municipais de 2024. A denúncia inclui ainda a candidata a vice-prefeita da chapa, Coronel Cláudia (PL), a deputada estadual Delegada Sheila (PL) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL).
A ação, agora sob análise do Poder Judiciário, busca responsabilizar penalmente os envolvidos. Se aceita, transforma os citados em réus — com possível suspensão dos direitos políticos e indenização por danos morais.
Acusações do Ministério Público
Segundo o MP, houve uma “campanha sistemática de desinformação” direcionada a desgastar a imagem de Fuad Noman, que faleceu em março de 2025, e favorecer o candidato do PL. Essa estratégia, segundo a denúncia, envolveu:
- A manipulação de trechos descontextualizados do livro Cobiça, escrito por Fuad em 2020;
- A falsa acusação de que a Prefeitura de BH expôs crianças a conteúdo impróprio durante o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), promovido com apoio do poder público municipal.
O MP ressalta que os ataques ocorreram “de forma livre, consciente e com o nítido propósito de influenciar o eleitorado”.
Participação de Nikolas Ferreira
O Ministério Público destaca o papel central do deputado federal Nikolas Ferreira na campanha de desinformação. A denúncia afirma que ele usou seu “alcance massivo nas redes sociais” para disseminar conteúdos sabidamente falsos e ofensivos.
Nikolas também teria descumprido ordem judicial que determinava a remoção do conteúdo irregular. “Produziu e disseminou conteúdo sabidamente falso e ofensivo, com o claro intuito de desequilibrar a disputa eleitoral”, diz o texto.
Propagandas com conteúdo distorcido
Durante o período eleitoral, a equipe de Engler lançou inserções na TV e redes sociais, retirando trechos do livro Cobiça de contexto. A obra traz, entre outras passagens, o relato de uma personagem vítima de abuso sexual. A campanha apresentou os trechos como se o autor, Fuad, endossasse a prática.
“Eu não vou nem ler o que está escrito, pois é muito pesado e pode ter crianças ouvindo”, disse Coronel Cláudia, em vídeo veiculado na televisão.
Outra peça publicitária associava Fuad à realização do Festival Internacional de Quadrinhos, sugerindo que o evento promovia o acesso de crianças a “conteúdos sexualmente explícitos”. Segundo o MP, as acusações eram infundadas e apenas induziam o eleitor ao erro.
Justiça Eleitoral já havia se manifestado
Durante a campanha, a Justiça Eleitoral já havia reconhecido o caráter difamatório das peças e ordenado a remoção dos conteúdos, além de conceder direitos de resposta a Fuad. O MP pontua que as penalidades eleitorais não excluem a responsabilização criminal, dada a independência entre as esferas judicial e penal.
“A denúncia enfatiza que as sanções eleitorais não afastam a apuração dos mesmos fatos na esfera criminal”, afirmou o órgão.
Pedidos do MP
Na denúncia apresentada, o Ministério Público solicita:
- A aceitação da denúncia com transformação dos acusados em réus;
- A fixação de valor mínimo de indenização por danos morais, a ser destinado a instituição de caridade, conforme desejo dos familiares de Fuad;
- A suspensão dos direitos políticos dos acusados, em caso de condenação definitiva.
O que dizem os envolvidos
Em nota conjunta, a assessoria de Bruno Engler e Coronel Cláudia declarou:
“A assessoria jurídica do Deputado Estadual Bruno de Castro Engler Florêncio de Almeida e Coronel Cláudia Araújo Romualdo vem, por meio da presente nota, ratificar que, em relação à denúncia feita pelo Ministério Público Eleitoral de Minas Gerais, em razão de material veiculado durante a campanha referente às eleições municipais de 2024, seus clientes não cometeram qualquer crime e que, no tempo oportuno, irão se manifestar nos autos do processo.”
A reportagem entrou em contato com a Delegada Sheila e o deputado Nikolas Ferreira, mas até a última atualização não houve retorno.
Contexto: campanha de 2024 e impacto político
A eleição municipal de 2024 em Belo Horizonte foi marcada por forte polarização. Fuad Noman, então candidato à reeleição, enfrentou resistência da base bolsonarista, liderada por Bruno Engler com apoio direto de Nikolas Ferreira.
A morte de Fuad, poucos meses após o pleito, ampliou o debate sobre o uso político de narrativas falsas nas disputas eleitorais. A denúncia do MP marca uma nova etapa no enfrentamento à desinformação nas campanhas e pode se tornar um caso emblemático no cenário político nacional.
Fonte: G1
